IMENSIDÃO AMAZÔNICA: CIÊNCIA E VIDA DE SAMUEL BENCHIMOL


Lillian Alvares

PREFÁCIO

O futuro não acontece por si mesmo. O seu fabrico é produto de ação planejada, da inovação, da iniciativa privada, do desejo político e da sociedade para criar um horizonte de vida, trabalho e bem-estar, que contemple a todos sob o pálio da justiça e da fraternidade. A Amazônia deve estar de braços e olhos abertos para receber esse futuro. 
Samuel Benchimol, em Desenvolvimento Sustentável da Amazônia, 2012

Nas páginas a seguir, a professora Alvares faz no artigo “Imensidão Amazônica: Ciência e Vida de Samuel Benchimol”, o que considero ser a melhor e mais completa síntese da obra do professor Benchimol, segmentando-a cronologicamente de forma a facilitar a compreensão do leitor e a permitir a sua contextualização histórica.

A Amazônia foi a grande paixão intelectual de Benchimol, que a ela dedicou a totalidade de seus 32 livros e mais de 70 artigos. Suas publicações sobre a região tiveram escopo extremamente amplo, incluindo, mas não se limitando às áreas de economia, sociologia, antropologia, geografia, história e ecologia. Ainda assim, diante de tão vasta contribuição, é possível destacar cinco conceitos centrais que permeiam o seu pensamento e a sua obra, que comento brevemente nos cinco parágrafos seguintes.

O primeiro apresenta os quatro paradigmas fundamentais para projetos de desenvolvimento da Amazônia: ser economicamente viáveis, ecologicamente adequados, politicamente equilibrados e socialmente justos. Essas visões representam, na minha opinião, o equivalente ao balanced scorecard da sustentabilidade da região. Os paradigmas estabelecem os fundamentos para balizar macropolíticas públicas para a Amazônia sugerindo critérios que permitem filtrar e enquadrar projetos como sustentáveis.

O segundo conceito trata do fato de que a busca da vocação para a nossa região deve colocar o homem no centro, e não à margem, da equação e de nossas preocupações. Em seu livro Zênite Ecológico e Nadir Econômico e Social”, Benchimol resume seu desconforto com um mundo bipolar que exibe a dissociação entre a sociologia e a ecologia, entre o homem e os recursos naturais. Segundo ele, políticas públicas maniqueístas desconsideram a interdependência do homem com a natureza e assim, têm retirado progressivamente a base econômica de sustentação de grande parte das populações do interior da região com a criação de numerosas restrições ambientais que têm promovido o empobrecimento, falta de perspectiva e o êxodo do homem do interior, mesmo daqueles engajados em atividades de baixo impacto ambiental. O movimento ambientalista, a despeito de seus méritos de preservação de recursos e preocupação com o futuro, tem desconsiderado a presença e os direitos de sobrevivência de quase 25 milhões de habitantes da Amazônia.

Em 1990, com a publicação do artigo “O Imposto Internacional Ambiental e a Poluição Nacional Bruta”, temos o terceiro conceito: iniciaram-se as discussões sobre a necessidade de as economias e agentes econômicos geradores de poluição e de carbono compensarem financeiramente aqueles que renunciam ao direito de usufruir de seus recursos naturais para preservar o meio ambiente para as futuras gerações do planeta. O Estado do Amazonas, que conservou intactos cerca de 97% do seu 1,5 milhão de quilômetros quadrados de floresta original, por exemplo, merece ser compensado pelos “serviços ambientais” (fixação de carbono, regulação do ciclo das águas, conservação do patrimônio biogenético da fauna e flora, etc.) que presta aqueles que poluem o meio ambiente ou utilizam um modelo de desenvolvimento emissor de carbono na atmosfera. O conceito de compensação entre poluidores e conservadores da natureza foi apresentado por Benchimol, com destaque, na Eco 92 no Rio de Janeiro, e desde então tomou a forma de créditos por redução na geração de carbono e nas taxas de redução de desmatamento das florestas.

Benchimol argumenta repetidamente em sua obra, sobre o quarto conceito, que a Amazônia é vasta e diferente demais para ser considerada uma só. A sua geodiversidade, biodiversidade e ecodiversidade são tais que necessitamos estudá-las, segmentá-las e compreendê-las para assim promovermos ações e políticas em harmonia com suas verdadeiras vocações. A adoção em 2012 de um novo código florestal para o Brasil que desconsidera as grandes diversidades amazônicas é uma evidência recente de quanto o país desconhece a região, ignora seus sistemas ambientais, desperdiça seu potencial e desconsidera as necessidades de seus habitantes.

Por último, o “Estatuto do Amazônida” (uma analogia ao majestoso poema “Estatutos do Homem” do amazonense Thiago de Mello) representa quase uma síntese do pensamento de Benchimol, e por isso a professora Lillian Alvares o transcreveu integralmente ao final do seu texto. Nele, Benchimol faz considerações sobre a grandeza, continentalidade e importância da Amazônia para o Brasil e para os brasileiros, destacando o seu rico potencial natural e humano. Os “Estatutos” atribuem direitos e obrigações aos habitantes da Amazônia de usufruírem desse potencial de forma responsável; de realizarem investimentos em infraestrutura que permitam o desenvolvimento de suas comunidades e economias; de buscarem a educação, a ciência e o conhecimento; de protegerem as populações indígenas assegurando-lhes suas terras e manutenção de suas identidades culturais; de reagirem contra a intervenção internacional, mas aceitarem a cooperação legítima e bem intencionada de cientistas e instituições estrangeiras. Trata-se de um chamado para construirmos com trabalho e responsabilidade o nosso próprio futuro.


APRESENTAÇÃO

Não é possível sintetizar a grande obra de Samuel Benchimol. Este artigo tenta trazer brevemente 60 anos dos resultados de seu trabalho. Começa nos anos 1940, cuja característica mais significativa foi seu amadurecimento intelectual: formação, primeiras pesquisas e a realização do mestrado nos Estados Unidos. Prosseguindo a análise, estão os anos 1950, quando o conhecimento em Direito advindo da graduação e o conhecimento em Economia oriundo do mestrado, capacitou-o ao título de doutor na Faculdade de Direito do Amazonas. Nessa década firma-se como professor e pesquisador. Nos anos 1960 seus interesses são ampliados. A Amazônia já não é mais vista apenas por uma perspectiva econômica, mas adquire toda a grandeza humana, cultural, geográfica, biológica, política, antropológica e social. A década de 1970 faz surgir o grande cientista-humanista, quando sua primeira grande publicação vem à luz: “Amazônia: um pouco-antes e além-depois”. Era apenas o começo da grande aventura que ainda o aguardava.

Nos anos 1980, consolida sua posição de profundo especialista em região amazônica, e com ela, a repercussão do seu trabalho. São inúmeros artigos e participações em todo tipo de evento que trata de pensar o futuro da Amazônia. A essa altura, seu nome já é referência no Brasil e no exterior. Chegamos aos anos 1990. Aos 67 anos emerge o gigante, o magnífico pensador da Amazônia que, só nessa década, produziu 17 livros, sem contar as reedições, folhetos e artigos. Aqui está o melhor de seu trabalho: “Amazônia: a guerra na floresta”; “Romanceiro da batalha da borracha”; “Eretz Amazônia: os judeus na Amazônia”; “Amazônia: quatro visões milenaristas e o excepcional”; “Amazônia: formação social e cultural”. Os anos 2001 e 2002, ocaso de sua vida, estão longe de trazer consigo o enfraquecimento criativo. Ao contrário, escreve “Zênite ecológico e nadir econômico-social: análises e propostas para o desenvolvimento sustentável da Amazônia”, obra totalmente criada na Clínica Mayo e uma de suas mais marcantes produções.

O impacto e a importância das obras de Samuel Isaac Benchimol ultrapassaram as fronteiras nacionais e alcançaram o mundo. Sua morte em 2002, aos 79 anos, deixou enorme vazio sobre a reflexão e prospecção da região. Na esteira dessa ausência, sua obra continua repercutindo, agora também nas novas gerações, nos novos pensadores e nas novas políticas de desenvolvimento da Amazônia.


O AMADURECIMENTO INTELECTUAL


O amadurecimento intelectual de Samuel Benchimol começa efetivamente no início dos anos 40. Em 1941, aos 18 anos, inicia o curso de Direito na Faculdade de Direito do Amazonas. Concomitantemente aos estudos de graduação, tem início sua longeva carreira docente como professor de Geografia e História da Escola Primária Prof. Vicente Blanco.

Seus primeiros escritos caracterizam-se pela perspectiva pessoal. “Versos dos verdes anos: poemas e haikais” escritos no período de 1942-1945 mostram a poesia contida no mestre, que se revelará continuamente em muitas de suas obras. No mesmo ano de 1942, produz também um relato pessoal do “Quarto centenário do descobrimento do Rio Amazonas: diário de uma viagem pelo Rio Solimões até Iquitos”, infelizmente, inédito. Seu conteúdo de acesso restrito trata das impressões anotadas, dia a dia, da viagem realizada com um grupo de estudantes de inúmeras cidades da região amazônica, em comemoração ao descobrimento do Rio Amazonas por Francisco de Orellana.

Um ano antes, em novembro de 1941, escreve “Roteiros da Amazônia” como resultado da palestra realizada na Faculdade de Direito de Recife a uma “entusiasmada embaixada de estudantes amazonenses”. O conteúdo, de perspectiva histórica, mostra a arrancada bandeirante do Planalto Paulista na marcha para o oeste, na afirmativa de conquistar mais Brasil para o Brasil. Para valorizar ainda mais esse movimento, Benchimol dá voz ao estudo épico-social das Bandeiras do historiador Cassiano Ricardo ao usar a perspectiva da “conquista do oeste brasileiro”, sobretudo pelo grupo nordestino. Argumenta que, embora o deslocamento social tenha sido motivado pelo clima que expulsou o homem da caatinga e a promessa econômica da borracha, o conjunto de atrativos desprezava que, de fato, a região era inóspita, confirmado com “cem mil vidas batendo à porta da selva e sem ninguém para abrir”. No futuro, essa questão seria retomada no clássico “Romanceiro da batalha da borracha”, de 1992.

Em 1946, marcas e impressões do período de estudante superior, vividas entre 1941 e 1945, traduzidas no relato de expectativas e compromissos profissionais que o aguardavam, produziram “O bacharel no Brasil: aspectos de sua influência em nossa história social e política”. Sua carreira docente mantém-se ativa, e entre 1943 e 1946 ministra a disciplina Economia e História Econômica do Brasil na Escola Técnica de Comércio Sólon Lucena. Em 1946 ingressa como docente de ensino superior na Faculdade de Direito do Amazonas, aos 23 anos, como professor substituto da disciplina Introdução à Ciência do Direito.

O convívio no ambiente acadêmico influenciou o jovem pesquisador Samuel a investigar e relatar em 1944 suas inquietações sobre o cearense na Amazônia. O texto trata da imigração do nordestino, em especial do cearense, quando e em que condições isso ocorreu. Mostra que a Amazônia originou-se à imagem do cearense e da seringa, chaves da formação social e econômica, devido à arrancada sertaneja para a região. Esse trabalho mereceu a medalha de prata do Prêmio José Boiteux, concedido pela Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro (SBRJ), por ocasião do X Congresso Brasileiro de Geografia, com a presidência de honra de Getúlio Vargas. Cabe notar, do conjunto de pareceres aos textos enviados ao Congresso, o que diz um dos pareceristas sobre o conteúdo: “pelo original, magnífico e profundo trabalho de antropogeografia e sociologia que nos ofereceu [...] pelo documentário cujo valor impõe seja registrado naquela publicação, quer pelo patriotismo e alto objetivo que o nortearam”.

Com os extraordinários resultados alcançados nesse trabalho, com apenas 21 anos, realizou a pesquisa “O aproveitamento das terras incultas e a fixação do homem ao solo, publicada no Boletim Geográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e também apresentada no XVII Conferência Distrital dos Rotary Clubes do Brasil, ambos em 1946.

Após essas iniciativas bem-sucedidas, Samuel Benchimol percebeu-se apto a avançar nos estudos e realizou sua primeira pós-graduação. Entre os anos de 1946 e 1947, ele cursa o Mestrado em Economia na Miami University, em Oxford, Estado de Ohio, universidade pública, fundada em 1809.

Sua dissertação de mestrado trata do crescimento da cidade de Manaus (“Manaus: The growth of a city in the Amazon Valley”). Traz o cenário econômico e geográfico da Amazônia do ponto de vista da sua condição social e ecológica, e os resultados dessa realidade para o desenvolvimento da cidade de Manaus. Em grau menor, sua pesquisa de mestrado também incide sobre a Sociologia, dando-lhe competência e legitimidade para lecionar o tema na Escola de Enfermagem do Amazonas.


DE VOLTA AO BRASIL

De volta ao Brasil, o conhecimento em Direito advindo da graduação e o conhecimento em Economia oriundo do mestrado capacitaram-no ao título de doutor pela Faculdade de Direito do Amazonas, defendendo a tese “Ciclos de negócios e estabilidade econômica: contribuição ao estudo da conjuntura”.

Os resultados do aprofundamento na matéria são imediatos. Nos anos que se seguiram lecionou Introdução à Economia; Introdução à Economia e Repartição de Renda; e Ciência das Finanças e Direito Tributário. Escreveu seu único livro da década de 1950, “Problemas de desenvolvimento econômico: com especial referência ao caso amazônico”, e firmou-se como professor de Economia Política e Introdução à Economia nas duas décadas seguintes (1954-1974).

Coexiste com o mestre e doutor em Economia o empresário, presidente da Bemol desde 1942 e diretor da Associação Comercial desde 1945. Essa condição, própria dos homens empreendedores e arrojados, veio à luz com a publicação “O Banco do Brasil na economia do Amazonas.

À singularidade de sua formação, seguiram-se a vivência e qualidades já a ele atribuídas de especialista na árida temática econômica, a importante atribuição de presidente e relator da Subcomissão de Crédito e Comércio, da Comissão Coordenadora dos Subsídios do Estado do Amazonas para o Plano Quinquenal da Valorização da Amazônia de 1954, quando apresentou o relatório “Planejamento do crédito para a valorização da Amazônia: situação histórica e atual do crédito no Amazonas, política de crédito necessária à mobilização, e medidas complementares e colaterais”.


AMPLIAÇÃO DO INTERESSE

Samuel Benchimol experimenta atividade intelectual moderada do início até meados dos anos 1960. Firma-se como professor de Economia Política e de Introdução à Economia na Faculdade de Direito do Amazonas e na Faculdade de Estudos Sociais. O momento de estabilidade o conduz à reflexão, e de fato, aponta novos rumos ao pensador.

A nova abordagem sobre a Amazônia, ampliada, acomoda-se durante a primeira conferência que Samuel Benchimol profere. A bordo do navio Lauro Sodré, dirigindo-se aos alunos da Escola Naval de Guerra em 1969, ele apresenta as 12 variáveis independentes e 49 opções estratégicas para o desenvolvimento da Amazônia, em uma palestra intitulada “Variáveis e opções estratégicas para o desafio amazônico”.

No final dos anos 60, precisamente em 1968, Benchimol publica “Política e estratégia na grande Amazônia brasileira, tornando claro que sua avaliação de Amazônia não estará limitada a esta ou aquela matéria, mas sim ao todo, ao conjunto de saberes sobre a Amazônia que, na década seguinte, dos anos 1970, não de torna-lo profundo especialista no tema.


CONSOLIDAÇÃO DO CIENTISTA-HUMANISTA

Os anos de 1970 estabilizam verdadeiramente o interesse do pesquisador. São lançados seis livros, dos quais se destaca “Amazônia: um pouco-antes e além-depois”. A obra recebeu a segunda edição em 2010. Seria esse seu livro mais marcante? Do meu ponto de vista, um dos mais expressivos. O maior está por vir, no final da década de 1990.

A curiosa análise que se faz do ponto de vista pessoal é: quando Samuel escrevia? Como ele pode escrever 6 livros com uma média de 384 páginas cada um, entre 1977 e 1979, considerando que nessa época a Bemol estava em fase de consolidação como grande empresa e precisava tanto de seus fundadores? A única resposta possível está no amor, na motivação e na dedicação com os quais se comprometia com as coisas em que acreditava, e pelas quais trabalhou e estudou, notabilizando-o de fato como forte personalidade no desenvolvimento da Amazônia.

No final da década, Samuel Benchimol dedicou-se a tratar do “Pacto amazônico e a Amazônia brasileira, um folheto de 43 páginas que lança as bases para a apresentação em 1979 de uma oikopolítica para a Amazônia. Tal neologismo tenta caracterizar uma nova ciência política interdisciplinar nascendo entre a fronteira da economia e da ecologia, a fim de motivar o exaustivo trabalho de mensuração e modulação realizado pelo autor, sobretudo para o entendimento, desenvolvimento estratégico e modelamento econômico da região.


REPERCUSSÃO DA PRODUÇÃO INTELECTUAL

A característica dos anos 1980 para Samuel Benchimol é a repercussão do seu pensamento. Alguns eventos tornam-se particularmente marcantes para ele, como o Congresso de Americanistas (International Congress of Americanists ou Congreso Internacional de Americanistas). Foram ao todo seis participações, que tiveram inicio no final dos anos 1980, com trabalhos relevantes sobre suas descobertas e reflexões.

Outro destaque foi sua participação nos eventos da Fundação Joaquim Nabuco, nos Seminários de Tropicologia, quando apresentou “A floresta tropical úmida: aspectos ecológicos” (1981), “Grupos culturais na formação da Amazônia brasileira e tropical” (1985); “Trópico e meio ambiente(1990) e “Eco-92: borealismo ecológico e tropicalismo ambiental” (1992). No evento de 1985 conheceu Gilberto Freyre, um dos mais renomados sociólogos do século XX, que o reconheceu como o maior especialista na região amazônica dentre os brasileiros. Em contrapartida ao elogio, Benchimol publicou “O encantamento de Gilberto Freyre”, no qual mostra que esse grande brasileiro, escritor que se dedicou à interpretação do Brasil sob os ângulos da sociologia, antropologia e história, ficou fascinado pela Amazônia. Cabe ressaltar que, nessa altura, o trabalho de Samuel Benchimol já tinha alcançado tal envergadura, que seu nome era conhecido e respeitado no país e no exterior.

Foram seis livros durante toda a década, de 1981 até 1989. “Amazônia legal na década 70/80: expansão e concentração demográfica” (1981); “Amazônia: andanças e mudanças(1981); “Amazônia fiscal: uma análise da arrecadação tributária e seus efeitos sobre o desenvolvimento regional” (1988); “Manual de introdução à Amazônia: programa, bibliografia selecionada, notas, mapas, quadros, material de leitura para análise, crítica e reflexões” (1988 e reeditado em 1996); “Amazônia: planetarização e moratória ecológica” (1989). O livro “Zona Franca de Manaus: a conquista da maioridade”, de 1989, foi publicado em edição bilíngue (“The Manaus Free Trade Zone: Coming of Age”). Entre esses, destaca-se o “Manual de introdução à Amazônia. Denso, é o resultado da sua experiência docente na disciplina “Introdução à Amazônia”.

Da perspectiva pessoal, Samuel manteve-se fiel às suas tradições e publicou em 1985 “Cobras e Buiuçus na Praça dos Remédios, um folheto de 20 páginas, que evidencia uma de suas facetas no legado ao ensino e à pesquisa: a metodologia de estímulo ao aprendizado por ele criada chamada Ordem do Mérito aos Cobras e Buiuçus, concedida aos mais inteligentes e mais dedicados alunos da turma em determinado semestre letivo.


O SURGIMENTO DO GIGANTE

A década de 1990 é a consagração plena do mestre, do empresário, do pesquisador, do cientista. Aos 67 anos está para ter início a maior produção científica e intelectual de Samuel Benchimol. Toda a sabedoria, todo o conhecimento, toda a imensidão amazônica estará contida nas páginas dos 17 novos livros por vir.

Em toda sua vida, Benchimol publicou 32 livros. Desses, mais da metade (53%) foram nessa década. Podemos classificá-los de acordo com as seguintes categorias. A primeira, como outrora, traz a perspectiva pessoal. Em 1993 retrata sua experiência empreendedora e pioneira na obra “Grupo Empresarial Bemol/Fogás: lembranças e lições de vida” e “Manáos-do-Amazonas: memória empresarial”.

O segundo grupo refere-se às políticas fiscais e à tributação. São eles: “Tributos na Amazônia: tesouro federal, seguridade social, fazenda estadual”; “Fisco e tributos na Amazônia”; “Amazônia fiscal 1994: bonança e desafios”; “Amazônia 95: paraíso do fisco e celeiro de divisas”; “Amazônia 96: fisco e contribuintes”, e “Zona Franca de Manaus: pólo de desenvolvimento industrial”.

O terceiro grupo trata de comércio exterior. As obras são: “Exportação e exportadores da Amazônia Legal em 1994”; “Exportação da Amazônia Brasileira 1995/1994”; “Exportação da Amazônia Brasileira e Comércio exterior da Amazônia Brasileira”.

O quarto grupo traz suas grandes obras, aquelas que selaram sua passagem para o exímo pensador, cientista e especialista da Amazônia. Aquelas que são referência de estudo e aprendizado a todos que se iniciam ou se aprofundam em estudos amazônicos. São elas: “Amazônia: a guerra na floresta”; “Romanceiro da batalha da borracha”; “Navegação e transporte na Amazônia”; “Eretz Amazônia: os judeus na Amazônia e o excepcional”; “Amazônia: formação social e cultural”.

Amazônia: a guerra na floresta” foi lançado em 1992 e reeditado em 2011. A obra inicia localizando a região amazônica na riqueza encontrada no espaço entre os trópicos de Câncer e Capricórnio. O autor assegura que somente compreendendo a diversidade dessa faixa intertropical, que inclui extensa variedade de geomorfologia, clima, cultura e biologia, pode-se compreender a totalidade da Amazônia.

Ainda em 1992, o “Romanceiro da batalha da borracha tem como fio condutor breves trechos do “Velho Testamento”. É como a recordação estimulada sobre a composição tríade do homem da Amazônia: atavismo, preservação e desenvolvimento. Contém, delicadamente, depoimentos ou cânticos dos soldados da borracha, na maior diáspora vista a partir do Ceará para o exílio amazônico, referindo-se aos Ciclos da Borracha I e II. São personagens e expressões de denso valor sociológico e humano que Benchimol conseguiu captar.

“Eretz Amazônia: os judeus na Amazônia” recebeu duas edições em 1998 e a terceira em 2008. A obra dedica especial atenção às quatro gerações de judeus na Amazônia e mostra como o Brasil tornou-se a maior nação judaica do mundo com cerca de 16 milhões de judeus e cristãos-novos.

“Amazônia: quatro visões milenaristas” reúne os trabalhos de 1993 a 1998 que tratam dos modelos de desenvolvimento da região. O primeiro, chamado “Modelo Amazonense de Desenvolvimento” é baseado em incentivos fiscais e uso intensivo de alta tecnologia, mas para Benchimol, destituído de nexos fortes com os recursos naturais e humanos disponíveis. O segundo, “Modelo Paraense de Desenvolvimento”, é mais realista — caracterizado pelo uso de recursos minerais, hidrelétricos, florestais, agropecuário e pesqueiro — entretanto, traz alterações ostensivas aos ecossistemas primitivos. Ao longo do percurso, o autor percebe um terceiro modelo em formação, o chamado “Modelo Ambientalista”, segundo o qual o mundo inteiro deveria pagar pelo não uso ou pouco uso da floresta e demais recursos da Amazônia. Para ele, é um modelo de sustentabilidade duvidosa do ponto de vista econômico, social e político, pois o mundo não está preparado para pagar as despesas ambientais inseridas nos bens produzidos segundo as normas e os parâmetros da ISO 14.000, nem nos custos de santuarização e planetarização amazônica.

A última contribuição de Benchimol da década é “Amazônia: formação social e cultural”. Lançada em 1999, teve a segunda edição em 2008 e a terceira em 2009. Nela, o extenso legado sobre o conhecimento amazônico de Samuel Benchimol traz extraordinário estudo antropológico sobre a formação da sociedade amazônica.

A memória empresarial dos pioneiros foi documentada magistralmente, registrando dados do período e histórias de como a região conseguiu atrair considerável número de empresários de todas as partes que buscavam (e ainda buscam) suprir a população de bens e serviços com alto nível de competitividade em inúmeros segmentos econômicos. Nesse aspecto, o livro demonstra que os únicos povos que se mantiveram na pobreza foram os índios e os caboclos da região. Os estrangeiros, incluindo italianos, sírio-libaneses e japoneses que aportaram, prosperaram fazendo da região foco de desenvolvimento de ciência e de tecnologia, de indústria e de agricultura, e atualmente da biotecnologia tropical na trajetória do crescimento sustentável combinando o uso dos recursos, a preservação dos ecossistemas e o crescimento econômico.

Para encerrar sua participação em livros nessa década, destaco o capítulo escrito para uma conceituada publicação para o país, organizada pelo então ministro do Tribunal Superior do Trabalho, Almir Pazzianotto Pinto. Intitulado “O livro da profecia: o Brasil no terceiro milênio”, Benchimol escreve “A Amazônia e o terceiro milênio: antevisão”.

A coleção “Manáos-do-Amazonas” foi concebida em três volumes. O primeiro para apresentar a memória empresarial, quando o autor descreve os pioneiros, tipos, personagens e líderes do empreendedorismo na região: do comércio, da produção, da indústria e dos serviços. Esse volume foi efetivamente o único a circular, em produção luxuosa, que servirá de “memento, memorando e memorial”. Os volumes dois e três jamais foram lançados, apesar de planejados. Ao segundo volume, Benchimol estimou tratar da memória geoeconômica e política dos quatro ciclos econômicos: o apogeu da borracha (1890 a 1910), a crise e depressão (1911 e 1941), o ressurgimento a partir dos Acordos de Washington, da Batalha da Borracha e da SPVEA (1942 a 1946) e finalmente, a Zona Franca de Manaus, que se inicia em 1967, cujo período áureo foram os anos da década de 1980. No terceiro volume pretendia versar sobre a memória social e cultural de Manaus, com a análise da influência dos diferentes grupos étnicos, culturais e sociais que formaram a massa crítica da população amazonense, com as suas contribuições, valores e identidades que abrangem a extensa sociodiversidade dos grupos índios nativos, os migrantes nordestinos do Brasil e mais aqueles provenientes do exterior.

Nesse período, sua participação nas comissões do Legislativo é significativa. Escreve e apresenta os seguintes relatórios: “Africanização econômica e balkanização ecológica da Amazônia” para a Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a Internacionalização da Amazônia da Câmara dos Deputados (1991); “Amazônia: crise no erário e na economia” para a Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (1992); “Fatores atuais dos desequilíbrios e alternativas de desenvolvimento na Amazônia Ocidental” para a Comissão Mista do Congresso Nacional para o Estudo do Desequilíbrio Econômico Inter-Regional Brasileiro (1992).

Em 1998 encerra sua carreira de professor, de presidente do Grupo Bemol/Fogás e de diretor da Associação Comercial do Amazonas. Naquele momento, como reconhecimento pelo seu valoroso esforço acadêmico, recebe o título de Professor Emérito da Universidade Federal do Amazonas.


O OUTONO CRIATIVO

Os anos 2000 iniciam com a aula de despedida, saudade e exortação na Faculdade de Direito da Universidade do Amazonas. Em 2001, aos 78 anos, participa na Argentina do International Conference on Essential Oils and Aromas, quando apresenta “Production of brazilian rosewood oil, copailba balsam and tonka Beans”. No ano seguinte, lança o último livro, “Desenvolvimento sustentável da Amazônia: cenários, perspectivas e indicadores”, resultado de uma palestra para o Seminário sobre o Potencial Econômico e Tributário da Amazônia, realizado em Belém.

Também em 2001 surge “Zênite ecológico e nadir econômico-social: análises e propostas para o desenvolvimento sustentável da Amazônia”, lançado em 2001 e em segunda edição em 2010. O livro revela a partir dos problemas e da singularidade amazônica, a metáfora geoastronômica para mostrar a situação do apogeu ecológico e perigeu econômico da região. O zênite ecológico seria então a parte mais alta da esfera celeste, livre de poluição e degradação. Na esteira desse conceito, as mudanças que deveriam haver na sociedade e na economia para que a vida no planeta alcançasse condições ambientais cujo legado à gerações futuras não estivesse comprometido. O nadir econômico-social é, em contraposição, o resultado negativo da combinação de fatores climáticos, metereológicos, de ordem espiritual e religiosa, racial e de gênero, distância e isolamento que geraram baixa produtividade das empresas, criações animais sem reconhecimento de qualidade, manejo florestal inadequado, uso indiscriminado do fogo, desmatamento, dificuldade em sair da pobreza, analfabetismo formal e informal e políticas inadequadas. A edição de 2010 traz uma novidade: incorpora ao texto o Estatuto do Amazônida, elaborado — e muito caro a Benchimol — para a Conferência do Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas no Rio de Janeiro em 1992.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

A antologia amazônica de Samuel Benchimol é única. Seu esforço intelectual contribuiu vivamente para compreender um pouco de toda a imensidão amazônica. Vibro ao ver citações de sua obra em vários idiomas. As pesquisas em desenvolvimento regional, formação econômica e territorial da região amazônica por todo o país trazem inúmeras citações de seu trabalho. Sua obra é a Amazônia impressa, em toda sua magnitude.

Pesquisador e Professor Emérito da Universidade Federal do Amazonas, Samuel Benchimol surpreende não apenas pela amplidão e domínio com que apresenta os temas relativos à Amazônia, mas também como venceu os desafios paulatinamente até tornar-se o excepcional educador e empresário que foi. Sua trajetória é referência às novas gerações, pois sua vida é repleta de ensinamentos, de vitórias e de intensos desafios.

Do amazônida apaixonado, conhecemos também o humanista de vasta formação cultural, que se orgulha de pertencer a essa faixa de terra, comparando-a com outras e destacando as potencialidades e qualidades daqueles que aqui habitam. A constelação de livros, folhetos, artigos, relatórios que ele produziu confirma a grandiosidade do homem que viveu pela Amazônia e que dedicou sua inteligência a estudar a realidade da região mais rica em biodiversidade do planeta.


Referências

 

BAZE, Abrahim. Samuel Isaac Benchimol: ensaio biográfico de um educador e empresário. 2. ed. Manaus: Valer, 2012.

 

EVANGELISTA, Helio de Araujo. Congressos brasileiros de geografia. Revista Geo-Paisagem online, Rio de Janeiro, ano 2, n. 3, jan/jun 2003. Disponível em <http://www.feth.ggf.br/congresso.htm>. Acesso em:24 jun. 2013.

 

FARIAS, Elson. Nova terra da promissão: a Amazônia de Samuel Benchimol. Manaus: Valer, 2010.

 

MARCOVITCH, Jacques. Pioneiros e empreendedores: a saga do desenvolvimento no Brasil. São Paulo: Editora Universidade de São Paulo (Edusp), 2007. v. 3.